A (R)Evolução dos amplificadores valvulados

A história dos amplificadores valvulados para guitarra passa, basicamente, pelos seguintes períodos, resumidos:

  1. 1937-1946 – Era “pré-Fender”. Gibson, Valco, Supro, entre outros fornecedores de kits (guitarra + amplificador) para guitarra havaiana são os principais catalisadores do desenvolvimento da amplificação neste período.
  2. 1946-1959 – Nascimento da Fender e período “Tweed”. Amplificadores feitos especificamente para a guitarra elétrica começam a dar forma ao “som do Rock ‘n Roll”. A Fender é pioneira e a principal fabricante desse período.
  3. 1960-1962 Surgem The Beatles, em 1960, os Rolling Stones em 1962, entre outros expoentes da época. A cena musical inglesa explode mundialmente e dá início à indústria de amplificadores para guitarra no Reino Unido.
  4. 1962 – Jim Marshall produz os primeiros amplificadores JTM45 baseados nos Fender Bassman 5F6-A.
  5. 1962 – 1970 – Os maiores expoentes do rock da época exigem amplificadores cada vez mais potentes, e cada instrumento elétrico passa a ter sua própria “parede de amplificadores”. Em 1965 a Fender é vendida à CBS. Em 1966 surge a Hiwatt, reforçando o campo de construtores britânicos, a qual produz modelos de 50 a 200 Watts. Frank Zappa inaugura a “música experimental” da guitarra elétrica. Em 1967 a Marshall lança o Marshall Major, de 200 Watts. A década termina com o desmanche dos Beatles e com a morte de Jimi Hendrix em 1970.
  6. 1971 – 1980 – Os grandes nomes dos anos 1960, como os Rolling Stones, permanecem em cena, porém o foco desvia-se para o rock progressivo e a psicodelia. Queen surge em 1971, trazendo composições sofisticadas unidas ao rock pesado e a combinação perfeita da guitarra de Brian May com os vocais de Freddie Mercury. Pink Floyd lança Dark Side of the Moon (1973) e domina o rock britânico até o fim de década, que termina com The Wall (1979). Eric Clapton, Jeff Beck, e Carlos Santana são os principais expoentes da guitarra elétrica. Nasce o Dire Straits em 1977, lançando Mark Knopfler sob os holofotes. Surge o Punk Rock, rompendo com o paradigma da época, sem harmonias ou arranjos sofisticados, usando distorção e amplificadores de alta potência. Os principais expoentes do Punk são Ramones (1974), The Clash (1976), Dead Kennedys (1978), entre outros. Nasce na Inglaterra o Heavy Metal com Iron Maiden, Motorhead e Black Sabbath. O rock pesado britânico é reforçado por Deep Purple e Led Zeppelin e a guitarra de Jimmy Page, quem consagrará a combinação da guitarra Les Paul com amplificadores Marshall e Fender. Ritchie Blackmore, do Deep Purple, inspirará todo o estilo visual e técnicas de diversos guitarristas futuros, empregando guitarras Fender Stratocaster no hard rock, estilo dominado por guitarras como a Les Paul ou Gibson SG. Steve Morse une “rock do sul” americano à virtuose com os Dixie Dregs (1976). A década de 1970 termina com o início de uma nova revolução na guitarra elétrica com a chegada aos palcos de Eddie Van Halen (1978).
  7. 1981-1992 – Os anos 1980 são dominados pela guitarra elétrica. A década ficará lembrada por ser a época do “maior, melhor, mais rápido, mais!”. Van Halen redefine a guitarra de Rock ‘n Roll e inspira os “fritadores” (nos EUA batizados de “shredders”) da guitarra como Joe Satriani, Yngwie Malmsteen, Steve Vai entre outros. Malmsteen destaca-se por sua velocidade e pelo estilo “neoclássico”. Em contraste aos “fritadores”, surge Stevie Ray Vaughan que redefine a guitarra de blues, trazendo técnica apurada porém sem fugir às raízes do gênero, e é aclamado pelos principais veteranos desse estilo, como Albert King, Buddy Guy e BB King. A década de 1980 consolida-se como o ápice da era dos exageros, com amplificadores de 100 Watts tornando-se o mínimo denominador comum, além de incontáveis efeitos sonoros tornarem-se a regra nos palcos. Surgem os “racks” de efeitos: verdadeiras “geladeiras” de efeitos especiais para guitarra, os quais tornam conhecidos nomes como Bradshaw e Eventide. A construção da guitarra elétrica é automatizada por CNC e industrializada ao extremo, sua produção torna-se maciça, o marketing predomina e guitarristas como Van Halen e Stevie Ray Vaughan e pop stars como Michael Jackson e Stevie Wonder, respectivamente, fazem trabalhos conjuntos. Surge em 1990 o primeiro disco de Eric Johnson, muito influenciado pelo conterrâneo texano Stevie Ray Vaughan, porém incorporando também influência da música clássica e de estilo Country Music. Em 1985 a Fender é novamente vendida, e encerra-se “o período CBS” que durou 20 anos e distanciou a empresa dos músicos, período que (WHEELER, Tom. 2007. p. 283) compara a “um asteroide atingir o planeta Terra” (em referência à Fender). Brian Setzer populariza o rockabilly instrumental da guitarra. A década guitarrística de 1980 termina com a morte de Stevie Ray Vaughan, em 1990.
  8. 1992-2002 Surge o movimento do Rock de Seattle, retornando a técnicas simples na guitarra e maior foco na musicalidade, tornando famosos Pearl Jam, Temple of the Dog, entre outros expoentes. Nasce, também em Seattle, a vertente mais “pesada” utilizando muita distorção e timbres pesados, movimento que leva o nome de “Grunge”, tendo como expoentes Nirvana, Alice in Chains, Soundgarden, entre outros. Diversas bandas retornam a equipamentos analógicos e estilos vintage. O período é marcado pela fuga dos efeitos especiais e o retorno aos arranjos básicos de guitarra direta ao amplificador priorizando o timbre puro do instrumento. Na guitarra blues/rock, Kenny Wayne Shepherd emplaca diversos sucessos com o álbum “Trouble Is…”, devolvendo às rádios a guitarra blues inspirada em Stevie Ray Vaughan. Em 2000 a guitarra de Carlos Santana retorna às rádios com o álbum Supernatural.
  9. 2003-Atualidade – A música perde foco e não há mais um movimento específico definidor do período. Ocorre, na opinião do autor, demasiada industrialização da produção musical, artistas artificialmente produzidos e composições triviais. Os amantes da música recorrem a nomes do passado, e surgem inúmeras coletâneas ao estilo “melhor de” (“The Best Of”). Na guitarra surgem poucos novos talentos, a exemplo de John Mayer, que procura reviver a guitarra Stratocaster no blues/rock também ao estilo Stevie Ray Vaughan, porém trazendo toques modernos e obtendo alguns sucessos populares.

Com essa retrospectiva-relâmpago, podemos notar que cada época exigiu características distintas dos amplificadores. Até 1946 a principal preocupação era apenas possibilitar que a guitarra havaiana fosse ouvida sobre o alto volume sonoro da percussão e dos instrumentos de sopro.

Com o nascimento do Rock ‘n Roll, artistas passaram a buscar mais potência de seus amplificadores, os quais ainda eram compartilhados por baixistas, vocalistas e guitarristas. Portanto, a distorção tão almejada por guitarristas não podia ser acentuada, sob risco de prejudicar os outros músicos.

As décadas de 1960 e 1970 consolidam, então, o Rock e dão origem às mais diversas variações do gênero. Continua a ser demandada mais e mais potência dos amplificadores, os níveis de distorção exigidos continuam a aumentar. Na década de 1960 o amplificador passa a ser um equipamento individual e seu uso compartilhado deixa de ser comum. Assim, a guitarra podia ser distorcida à vontade. Em 1969 a Ampeg lança o SVT de 300 Watts, o maior amplificador valvulado para instrumentos até então; construído especificamente para o contrabaixo elétrico.

A Fender surge no mesmo momento da popularização do Rock ‘n Roll norte-americano e a Marshall surge no início da explosão do rock britânico. Ambas são pioneiras na amplificação para guitarra e assim estiveram presentes nos palcos musicais durante esse período tão especial da história moderna.

A década de 1980 foi marcada pelo exagero de efeitos especiais e equipamentos digitais sofisticados, os quais exigiam amplificadores potentes e sonorização especial. A Marshall consolidou a série JCM800 de 50 e 100 Watts como o padrão “de facto” para amplificação do rock da época. A Fender procura recuperar terreno perdido durante os anos CBS, e outros incontáveis produtores de amplificadores se consolidam no mercado, como Ken Fischer, Alexander Dumble, Peter Traynor, Paul Rivera e Don Randall, entre outros.

Com o “retorno às raízes” durante a década de 1990, vimos uma nova popularização de antigos clássicos. Houve demanda renovada por arranjos de apenas guitarra e amplificador e a Fender relançou modelos dos anos 1950 e 1960 de fabricação atual, os chamados “reissues” ou RI’s. Entre eles: Bassman 1959, Twin Reverb, Deluxe Reverb 1965 e, mais recentemente, o Champion 600. Fabricantes de amplificadores de boutique também tiveram uma década de excelentes negócios, com o fortalecimento de marcas como Dr. Z, Trainwreck e Dumble. A Peavey, já famosa no mundo da amplificação, lança o modelo 5150 em 1992, escolha de Eddie Van Halen durante aproximadamente uma década. Aqueles que tiveram a oportunidade de carregar um amplificador Peavey EVH 5150 212 combo jamais se esquecerão da experiência: o amplificador de 60 Watts pesa cerca de 40 Kg. (PEAVEY. 2012.)

Na atualidade, existe um mercado de amplificadores valvulados absolutamente globalizado. O grande parque industrial asiático, principalmente aquele da China, chegou ao mercado ocidental em definitivo trazendo algumas das principais marcas de amplificadores populares da atualidade. Surgiram então marcas como Behringer, Line 6, entre outras, que produzem em grande escala na China e possuem eficientes cadeias de distribuição para todo o mundo. Nas décadas de 1990 e 2000 a Marshall também passou a produzir a maior parte de sua linha de amplificadores mais populares na China. Vários concorrentes passaram a adotar a mesma tática, entre eles a Fender, cujos amplificadores norte-americanos e mexicanos recebem tarjas especiais indicando sua procedência, a exemplo do ”Custom Shop” da Fender.

A série Marshall JCM900, apesar de ter sido produzida na Inglaterra, chegou ao mercado com potenciômetros de baixa qualidade, ponte de diodos de retificação, subdimensionada, diodos pequenos e sem redundância, capacitores eletrolíticos internos de baixa qualidade, entre outras deficiências causadoras de falhas frequentes.

Resistores rebaixadores, a exemplo do R30, parte dos circuitos dos primeiros JCM900, também foram subdimensionados e trabalham extremamente quentes, chegando a causar derretimento da solda e falhas precoces em alguns casos. O JCM900 SL-X, na opinião do autor, foi uma reação da Marshall à demanda da era Seattle/Grunge, quando músicos exigiam distorção extrema e abriam mão do reverberador (JCM900 Hi-Gain Dual Reverb) em troca de distorção (SL-X). Existe ainda grande demanda por tais amplificadores, pois possuem excelentes transformadores, timbre aceitável e produzem estrondosos 100 Watts de potência.

A Orange passou a produzir diversos modelos na Asia, principalmente na China e na Coréia. Aqueles produzidos na Inglaterra possuem maior valor de mercado, devido à baixa quantidade de unidades construídas. A Vox possui modelos de baixo custo e baixa qualidade, a exemplo dos Vox Brian May transistorizados, cujo timbre é simplesmente inaceitável quando comparado ao padrão de qualidade histórico da empresa.

Assim, podemos notar que a tendência atual é voltada para o mercado, onde a luta por preços e competitividade comercial em termos globais têm ganhado mais importância. A globalização gerou um novo mercado, onde marcas clássicas encontram-se disputando com dezenas de pequenas marcas menos conhecidas. Surge, então, a oportunidade para aqueles que constroem amplificadores únicos, de boutique, personalizados e onde o músico busca possuir uma peça especial, construída mediante suas exigências.

A fabricação em série de amplificadores de custo cada vez menor têm gerado uma certa homogenização de timbres. Ao ouvir o timbre diferenciado, proveniente de um amplificador cuidadosamente trabalhado, o ouvinte não deixa de se encantar com a qualidade sonora dos valvulados clássicos.

Alguns dos materiais utilizados na fabricação de válvulas tornam-se cada vez mais raros, a exemplo dos isolantes de mica (GPO. 1950). Potenciômetros tendem a se extinguir diante da tecnologia digital, e os grandes transformadores isoladores são cada dia mais raros em aparelhos domésticos devido à tecnologia das fontes chaveadas de alta velocidade, algumas das quais são capazes de alimentar centenas de watts a partir de um minúsculo espaço físico.

Assim, é difícil prever o futuro dos amplificadores valvulados e cabe a nós, apaixonados pela arte de construir tais instrumentos, perpetuar essa tecnologia há muito considerada “obsoleta” pelo mercado.

Até o momento, as válvulas têm sobrevivido a todos os modismos graças a entusiastas de todo o mundo, a exemplo dos próprios Leo Fender e Jim Marshall.

Agora que conhecemos o primeiro século da história dos amplificadores para guitarra, é chegada a hora de ingressarmos no estudo de seu funcionamento.