Prefácio

É difícil explicar o que há por trás de um belo timbre de guitarra – a busca pelo “timbre ideal” parece interminável.

Não há um guitarrista que não tenha procurado deixar registrada a marca de um timbre inconfundível, uma assinatura musical. O timbre está para o guitarrista como a voz está para o tenor. Assim como certas vozes marcam gerações e tornam-se ícones de sua época, outras surgem repentinamente sob os holofotes e logo são esquecidas.

O que há por trás da busca a essa pedra preciosa musical que chamamos de “timbre perfeito”? Por que poucos músicos possuem a assinatura de um timbre que reconhecemos imediatamente? Como é possível reconhecer, após ouvir apenas algumas poucas notas, o timbre da guitarra de Carlos Santana, Mark Knopfler ou B.B. King?

Parte da motivação para escrever este livro surgiu de minhas tentativas de responder a algumas dessas perguntas.

As explicações para tal fenômeno podem ser diversas. Discutiremos aquelas mais técnicas logo adiante, ao longo deste texto. Por hora, vamos falar do que, exatamente, torna especial o “timbre assinatura” dos grandes ícones da música, e qual a sua relação com os instrumentos musicais que aqui desejamos estudar: os amplificadores valvulados.

Músicos que deixam a sua marca registrada na história conversam conosco por meio de seu instrumento musical. Transmitem perfeitamente aquilo que pensam e sentem, e sua música passa a ter personalidade, torna-se viva, toca as pessoas e diz a todos o que o artista sentia a cada nota musical. Quando o músico atinge seu objetivo, deixa então de existir diferença entre ele e sua música. Passamos a reconhecer um e outro como se fossem a mesma pessoa.

A música de Carlos Santana, e ele, são parte da mesma pessoa. Cada nota possui um rosto familiar que, ao ser ouvida, mesmo que apenas de relance, nos permite reconhecer a canção, onde estávamos a primeira vez que a ouvimos, o último show no qual a conferimos ao vivo e as incontáveis outras emoções que a música é capaz de suscitar. E então, pela música, sentimos a mesma emoção de reencontrar um velho amigo, de reviver um momento especial.

Não importa qual seja o gênero musical, a beleza musical pode nele ser encontrada. A beleza é universal, apenas se manifesta de formas variadas, criando imagens distintas, como a lente de quem fotografa também altera a imagem que veremos impressa. E a maneira como a beleza se manifesta determina se ela deixará, ou não, sua marca permanente em nossa memória.

Não percebemos a mesma beleza musical que a pessoa ao nosso lado. Cada um de nós possui um senso diferente de percepção estética. Tal senso parece possuir um “nervo oculto” que é absolutamente individual e distinto entre todos nós – e a música que agrada a esse sentido jamais será esquecida.

Existe a beleza “comum”, tradicional, aquela que é culturalmente aceita e que é, normalmente, divulgada incessantemente nas propagandas de TV. Mas é apenas a beleza que toca nosso senso individual que realmente deixa sua marca. Uma canção belíssima pode tocar por minutos a fio e passar desapercebida, enquanto que algumas poucas notas de guitarra podem nos encantar instantaneamente e deixar sua marca para sempre.

Para deixar sua marca na história da música, a criação deve ser individual, deve ser especial, exótica e única. O timbre do guitarrista que deixa sua marca na história possui personalidade; é diferente dos outros. O timbre que deixa sua marca faz parte da própria pessoa do músico, e nós lembramos de ambos sempre juntos.

As grandes obras possuem identidade, não perdem seu charme com o passar do tempo, pois são únicas, insubstituíveis. Os violinos de Maggini e Stradivari, os afrescos de Michelangelo e os solos de violão de Andrés Segovia são seres vivos, porém eternos. Não importa o tempo que transcorrer, jamais serão considerados meros produtos para consumo imediato, rápida digestão e fácil descarte. Pelo contrário, as grandes obras são como as pessoas mais especiais – únicas e insubstituíveis.

Neste texto, falaremos de uma tecnologia “obsoleta”, antiga, absolutamente desligada da modernidade. Falaremos da tecnologia que deu origem a toda a era da informação e que dela não participa mais.

Falaremos de amplificadores antigos, que possuem história e tradição, que remetem o ouvinte às lembranças dos períodos que mudaram o mundo no século XX, às primeira e segunda guerras mundiais, ao surgimento da televisão, do rádio popular, das primeiras transmissões de futebol e de noticiários ao vivo. O som inconfundível transmitido pelo primeiro objeto humano a circular a terra foi amplificado, lá nos céus, por válvulas – não haviam transistores no satélite Sputnik (LUDWIG, George. 2007).

Falaremos destes seres curiosos que ajudaram a mudar o mundo, os amplificadores valvulados.

Quando alguém me pergunta qual a diferença de um amplificador valvulado para outros mais modernos, respondo que o valvulado é vivo, possui caráter e personalidade próprios. Não existem dois amplificadores iguais e cada um carrega consigo toda uma cultura, evoca lembranças, representa tempos históricos e têm voz e rosto inconfundíveis.

Amplificadores valvulados não envelhecem, mas evoluem, se tornam mais maduros, desenvolvem cada vez mais a voz própria e passam a ser como velhos parceiros dos músicos. O bom amplificador não abandona o guitarrista. Sobrevive às modas e aos modismos, e continua a encantar o ouvinte décadas após ser ligado pela primeira vez. E o bom guitarrista tampouco abandona seu amplificador, pois ele faz parte de sua assinatura, ele é parte do instrumento musical.

O Fender Twin ou Mark I e Keith Richards são parte da mesma pessoa. O Mesa Boogie faz parte da voz da guitarra de Carlos Santana, os antigos Ernie Ball e os Fender Deluxe Reverb da década de 1960 fazem parte da música e da pessoa de Mark Knopfler.

Os grandes músicos possuem vários amplificadores – são como amigos inseparáveis, parceiros musicais que ocasionalmente participam de um e outro projeto juntos. Cada amplificador contribui com seu timbre, com sua assinatura, ao trabalho do músico.

Os amplificadores a válvulas sobreviveram a todas as guerras e a todos os temporais. Estavam lá, encima do palco, vivos e com as válvulas pegando fogo mesmo sob fortes chuvas e banhos de birita durante a revolução da contracultura.

Estiveram nos palcos atrás de Elvis Presley, rodaram o mundo com os Rolling Stones, sobreviveram às surras do The Who e trouxeram ainda mais luz aos espetáculos do Pink Floyd.

Os amplificadores valvulados viveram em paz e amor, mas também sobreviveram à guerra, nos campos de batalha, cumprindo sua função nos rádios, radares e diversos instrumentos e armamentos militares.

O Fender Showman foi imortalizado pelas mãos do soldado James Hendrix, ao retornar da guerra do Vietnã. O Bassman 5F6-A de 1959 tornou-se parte da voz de Stevie Ray Vaughan quando gravou algumas das obras de guitarra mais memoráveis da história.

Os amplificadores a válvulas continuam a encantar, mistificar e a emocionar mais de 100 anos após sua invenção. Não existem dois amplificadores valvulados iguais, sua beleza, qualidades e defeitos, são únicos.

Espero que esta obra, que reflete meu estudo destes fantásticos instrumentos musicais que chamamos de amplificadores, leve o leitor a ouvir e a compreender de uma forma diferente a música que com eles é criada. Que o leitor passe a reconhecer a assinatura destes personagens históricos que quase sempre passam por grandes espetáculos despercebidos. O amplificador dá vida à música, faz parte da assinatura do músico e, assim como ele, torna-se parte da criação musical.

Espero que depois dessa viagem à ilha esquecida dos dinossauros musicais, o leitor possa até arriscar-se a construir seu próprio instrumento valvulado!

O texto foi dividido em 3 partes principais: História, Teoria e Construção

Na primeira parte procuro oferecer ao leitor o subsídio histórico para compreender melhor o que há por trás de um bom amplificador valvulado. Conhecendo a história dos amplificadores, de onde surge cada parte e cada componente, e como tudo evoluiu em conjunto para chegarmos à atualidade, o leitor poderá compreender melhor a segunda parte do livro, onde discutiremos o funcionamento teórico de cada parte do valvulado.

Falaremos então da engenharia que existe entre cada nota musical que deixa sua guitarra com alguns microwatts de potência e que ressurge nos alto-falantes com um timbre maravilhoso e impondo-se diante de enormes platéias. Tudo isso na velocidade da luz! Usarei linguagem técnica ou matemática somente onde for necessária para aclarar um e outro fato relevante. A busca ao timbre valvulado já é complicada por si, não precisamos sofisticá-la além do necessário.

Na terceira e última parte compartilho com o leitor o que os estudos e a experiência construindo amplificadores me ensinaram. Muitos dos conhecimentos ali descritos foram o resultado de muita experimentação e várias trombadas pelo caminho das tentativas fracassadas.

A fórmula de Albert Einstein não falha jamais: a genialidade é feita de 1% inspiração, 99% transpiração. Construir um bom amplificador não foge à regra: é um trabalho que exige cuidados especiais, muita prática e bastante atenção a cada detalhe. Conhecer a teoria é apenas o início.

Espero que, com essas dicas, o leitor possa saltar as dificuldades que encontrei, para chegar mais rápido à melhor parte de tudo isso: ver as válvulas esquentando para curtir o melhor timbre de guitarra que existe. E que percorrer essa estrada seja tão divertido para você quanto o têm sido para quem vos escreve. Tenho a certeza de que o será.

José Fonseca
Brasília, DF
Maio de 2013