Pioneiros da Guitarra Elétrica

Realizaremos agora um passeio, em ordem cronológica (com algumas sobreposições), pela história de alguns dos pioneiros que trouxeram inovações importantes à fabricação de amplificadores valvulados.

Rickenbacker

A formalização da empresa Rickenbacker foi o próximo passo tomado após a obtenção da patente da guitarra (SMITH. 1987. p. 10). Tendo deixado a National Instruments, Rickenbacker passou a dedicar-se à produção de instrumentos elétricos.

George Beauchamp, Paul Barth e Adolph Rickenbacker fundaram a empresa que produziu, em série, as primeiras guitarras elétricas da modernidade (RIC. 2012).

Além do modelo “frigideira”, a empresa passou a produzir “guitarras elétricas espanholas”, cujo nome busca diferenciá-las das guitarras anteriores, estilo havaianas, as quais eram tocadas deitadas.

As “espanholas Rickenbacker” conduziriam a industria a seu destino atual: a guitarra elétrica tocada na mesma posição do violão clássico. Diversos modelos de guitarras e contrabaixos Rickenbacker foram imortalizados durante os anos 1960, principalmente pelos Beatles (SMITH. 1987. p. 75).

A Rickenbacker Instrument Corporation permanece em funcionamento até os dias atuais. Os pais da guitarra elétrica continuam a ser cultuados por várias gerações de músicos, fãs e guitarristas de bandas como R.E.M., Tom Petty, U2, The Eagles, Oasis, The Smiths, The Bangles, Yes, The Who, The Smashing Pumpkins, Radiohead, entre incontáveis outros.

Tudo isso, como se não bastassem George Harrison, John Lennon e Paul McCartney para imortalizar a marca! Infelizmente a Rickenbacker não fabricou as baterias de percussão para Ringo Starr, honraria que foi reservada à Ludwig.

Gibson

Orville Gibson iniciou sua produção de guitarras em 1894 no estado americano de Michigan (BACON et al. 2009). Trabalhou na empresa até poucos anos antes de sua morte, em 1918. Durante cerca de duas décadas, Gibson estabeleceu-se como um dos maiores fabricantes de violões e bandolins dos Estados Unidos (BACON et al. 2009). Orville Gibson jamais conheceu um amplificador que levasse seu sobrenome. Faleceu cerca de 15 anos antes de surgirem os primeiros valvulados Gibson. Ironicamente, o fundador da empresa tampouco chegou a conhecer a guitarra Les Paul, a qual se tornaria o maior ícone musical da marca.

O amplificador EH-150 para guitarra havaiana, cuja produção foi iniciada em meados da década de 1930 (data precisa desconhecida), é o amplificador valvulado para guitarra mais antigo sobre o qual o autor possui conhecimento. De acordo com Ken Fischer (FISCHER, Ken apud WEBER, Gerald. 1997. p. 148) “Este [o EH-150] é realmente raro. É um amplificador divertido para mim, porque nenhum outro Gibson usou válvulas tão raras e esquisitas. Esse é um exemplo do melhor que havia nos primórdios da Gibson. Um exemplo clássico dos elementos de design antigo de [amplificadores de] áudio valvulado.”

A empresa Gibson mudou de controle administrativo inúmeras vezes após a morte de seu fundador, e as diversas administrações que assumiram a marca não se preocuparam em resgatar a história anterior. Assim, as datas precisas dos fatos relevantes da empresa no início do século XX são incertas. Durante a década de 1940 a 1950 a Gibson inovou ao produzir amplificadores estéreo como o modelo GA-79RVT. Até os anos 1950 a empresa produziu amplificadores utilizando válvulas de base octal no pré-amplificador e, na maior parte dos modelos, válvulas de potência 6V6. Posteriormente os pré-amplificadores passaram a utilizar válvulas miniatura, com base de 9 pinos, a exemplo da 12AX7 (PITTMAN. 2003 Pgs. 33-37). A empresa foi subsidiária da Norlin, que também fabricou os amplificadores Lab, tornados famosos pelas mãos de BB King (modelo Lab Series L5). O casamento da guitarra Gibson Lucille com um amplificador Lab Series, fabricado por uma empresa parceira da Gibson, não podia ser mais perfeito. Vide (INGRAM. 1997).

Fender

Apesar de outros terem ingressado no mercado de amplificadores valvulados para guitarra antes de Leo Fender, foi ele quem criou os modelos de maior sucesso da história.

Inventor, eletricista e visionário, Leo Fender iniciou sua carreira aos 29 anos de idade, em 1938, consertando rádios na cidade de Fullerton na empresa “Fender’s Radio Service”, fundada por ele. (WHITE. 1994. p. 6)

Em 1946, montou sua pequena indústria, onde produzia amplificadores baseados em circuitos obtidos em manuais de componentes eletrônicos. Várias modificações foram feitas nos circuitos copiados e, em 1948, 3 anos antes do nascimento da lendária guitarra Telecaster, Fender já produzia o amplificador Princeton de 6 Watts (WHEELER. 2007. p. 120), além do Pro e Deluxe, todos acima de 10 Watts – potência considerada excelente por guitarristas da época.

Os primeiros amplificadores Fender foram responsáveis por uma verdadeira revolução no mundo da guitarra. Pela primeira vez os guitarristas podiam “disputar” com os percussionistas e trompetistas em termos de volume sonoro. Os primeiros amplificadores Champ tornaram-se padrão para iniciantes, possuíam apenas uma chave liga/desliga e controle de volume. Posteriormente foram adicionados controles de graves e agudos, entre outros. Amplificadores Champ são produzidos até os dias atuais!

A história da Fender confunde-se com a história da contracultura, do Blues, Rock ‘n Roll e de toda a música contemporânea. Posteriormente surgiram os amplificadores Professional, o Dual Professional e o Harvard. Logo seria lançado o Tweed Twin com 2 alto-falantes de 12” e nada menos que 100 Watts de potência. Chegaram também os Bassman, os quais foram inicialmente projetados para contrabaixo mas que, curiosamente, obtiveram enorme sucesso entre guitarristas. As modificações feitas na linha Bassman culminaram no famoso circuito 5F6-A de 1958/9, um dos circuitos de amplificadores valvulados mais cultuados, copiados e adaptados por diversos fabricantes, até os dias atuais.

O Bassman 5F6-A foi, também, o circuito copiado por Jim Marshall no amplificador Marshall JTM-45, primeiro produto da empresa que posteriormente se tornaria concorrente da Fender. O JTM-45 é, basicamente, um Bassman virado de cabeça para baixo com os controles e entradas na ordem inversa (como não podia deixar de ser na Inglaterra). O circuito de trêmolo foi a única patente de circuito obtida pela empresa, segundo (O’CONNOR, Kevin. 1995. p. 1-11). Talvez, daí, o fato dos circuitos Fender serem livremente copiados até os dias atuais. O próprio sucesso da Marshall veio da cópia de um circuito Fender!

“Um dos mais famosos imitadores da Fender foi Jim Marshall, na Inglaterra.” (O’CONNOR, Kevin. 1995. p. 1-13)

Em 1964 Leo Fender vendeu a empresa por US$ 13 milhões. Entre 1964 e 1980 a CBS, que assumiu a gerência da Fender, focou-se estritamente no aspecto gerencial, perdendo contato com os músicos (WHEELER. 2007. p. 283). Naquele período a Fender produziu diversos modelos de amplificadores transistorizados conhecidos pelo timbre e qualidade questionáveis, fato que deteriorou bastante a imagem da empresa.

Alguns modelos de amplificadores 100% transistorizados construídos pela CBS receberam nomes idênticos aos de amplificadores tradicionalmente valvulados, o que promoveu dificuldade na identificação dos produtos. Existem, assim, amplificadores Fender Deluxe totalmente transistorizados que não possuem qualquer relação com os famosos Deluxe valvulados (TEAGLE. 1995. p. 144).

Em 1985 a Fender foi novamente vendida, dessa vez a um grupo de investidores. A nova administração obteve sucesso e houve, assim, um ressurgimento da Fender como “empresa orientada para músicos” (WHEELER, Tom. 2007. p. 345).

A história de sucesso da Fender com amplificadores valvulados já passa dos 65 anos.

Leo Fender morreu em 1991 aos 82 anos de idade (TALEVSKI. 2006. p. 172).

Marshall

A Marshall surge em 1962, apresentando seus amplificadores como alternativa de preço mais acessível à Fender na Europa (PITTMAN, Aspen. 2003. p. 52).

A importação dos famosos amplificadores norte-americanos, atravessando o oceano para chegar à Inglaterra, encarecia demais aquela marca no mercado europeu e, em função disso diversos fabricantes locais passaram a lucrar com a explosão de bandas britânicas surgidas no início dos anos 1960. Jim Marshall estava no lugar certo, na hora certa. A Marshall copiou os principais circuitos da Fender, substituindo válvulas norte-americanas por modelos mais facilmente adquiridos na Europa. As válvulas 6L6 eram substituídas por EL34 nos modelos de 50 e 100 Watts, por exemplo.

“Os principais circuitos Marshall não tinham nada de especial. Eram [Fender] Bassmans ou Twins fabricados na Inglaterra, porém com o gabinete de alto-falantes separado.” (O’CONNOR. 1995. p. 1-14)

A construção robusta, bela aparência, os preços acessíveis e inovações como o sistema de “pilhas” de amplificadores (stacks) fizeram da Marshall um sucesso imediato na Europa. Poucos anos depois, amplificadores Marshall chegariam aos Estados Unidos, tornando-se famosos principalmente pelas mãos de Jimi Hendrix. A invasão do Rock Britânico aos Estados Unidos também contribuiu para a popularidade da marca, tendo como expoentes Ritchie Blackmore(Deep Purple), Jimmy Page(Led Zeppelin), Jeff Beck, Eric Clapton, entre outros grandes. Apesar do pioneirismo da Fender, a Marshall é, talvez, a marca mais reconhecida como sinônimo de amplificação para guitarra.

Vox

A Vox surge no fim dos anos 1950 e também participa da explosão do Rock Britânico. Os amplificadores Vox, e seus tradicionais painéis frontais em tecido ortofônico ornamentado com padrões de diamantes, foram imortalizados pelos Beatles e Rolling Stones e logo tornaram-se um ícone dessa geração. O primeiro amplificador da empresa foi o AC15 lançado em 1957 (BROSNAC. 1987. p. 56), porém havia demanda por amplificadores cada vez maiores. A Vox então “dobrou” a potência do AC15 – dando origem a um dos amplificadores mais famosos e cultuados da história, o lendário AC-30 que viajaria o mundo com os Beatles, Brian May (Queen), The Edge (U2), entre outros.

Outras marcas inovadoras na Europa

Ainda na Europa, devemos destacar a alta qualidade e construção impecável dos amplificadores Hiwatt e Orange. São duas marcas que não atingiram o status popular da Marshall ou da Vox, mas que produziram alguns dos amplificadores mais aclamados por músicos de todo o mundo. Os primeiros amplificadores Hiwatt foram construídos utilizando peças de precisão, componentes normalmente denominados “milspec”, ou “padrão militar” (FLIEGLER. 1993. pg. 54). São componentes construídos especificamente para suportar condições de trabalho inóspitas, fato que pode explicar a fama de robustez destes amplificadores. Já a Orange surgiu como empresa de produção musical, em 1968, e neste primeiro momento não produzia amplificadores valvulados. (HUNTER. 2012. pg. 174). Nos anos seguintes passaram a construir amplificadores, obtendo fama imediata e aceitação na cena musical de Londres ao início dos anos 1970. A empresa Orange existe até os dias atuais, e possui diversos