Gabinetes

A função do gabinete é de proteger fisicamente e isolar eletricamente o chassi, as válvulas e o circuito do amplificador. No entanto, a forma não precisa, necessáriamente, seguir a função: o gabinete pode ser construído de forma a tornar o amplificador único. Normalmente os amplificadores serão lembrados pelo visual do gabinete.

Nos modelos combo o gabinete possui também a função de caixa acústica, pois acomoda e fixa mecânicamente os alto-falantes.

Gabinetes podem ser construídos em compensado de madeira, MDF ou madeiras maciças (ver capítulo sobre madeiras) e podem receber uma variedade de acabamentos (ver capítulo sobre tecidos). Alguns dos amplificadores mais conceituados utilizam coberturas estilo couro animal, a exemplo do Tolex. Esses incluem amplificadores Dumble, a maioria dos modelos Fender, incluindo aqueles produzidos no “Custom Shop”, Peavey, Marshall, Crate e assim por diante. Outros utilizam madeira exposta e acabada em verniz, a exemplo dos amplificadores Trainwreck de Ken Fischer, normalmente construídos em maple e outras madeiras comuns no norte dos Estados Unidos.

Alguns fatores devem ser levados em consideração na construção do gabinete.

Nossa maior atenção deve ser dedicada à rigidez estrutural. Montagens sem reforços, utilizando apenas cola e pregos/parafusos, necessitam de suporte interno, ou “mãos francesas”, para não sofrerem deformação. Muitas vezes o painel frontal também ajuda a manter a forma do gabinete.

Juntas de “malhete”, a exemplo dos chamados “rabos de andorinha”, ou as mais simples, juntas retangulares, oferecem maior rigidez estrutural e são capazes de manter a armação em perfeito angulo reto mesmo sem lançar mão de outros apoios internos. Utilizo e recomendo essa técnica, visando manter limpa a parte interna do gabinete, sem reforços adicionais.

Nas juntas de madeira ou MDF deve ser usada exclusivamente a cola de PVA (ver seção sobre materiais). Em alguns detalhes da montagem, como molduras, plaquetas identificadoras e outros pequenos acabamentos, podem ser empregadas “colas rápidas” de epoxy ou cianocrilato. Na colagem estrutural de madeira deve ser usada apenas a cola PVA.

Colando madeira

Alguns gabinetes de grife são notórios por descolarem após alguns anos de uso. Entre os mais conceituados que costumam apresentar tal problema encontram-se os Mesa Boogie Mark II. Deparei-me com diversas unidades cujos encaixes dos malhetes “rabo de andorinha” haviam se soltado. O problema ocorre principalmente quando as peças são coladas sem a aplicação de pressão. Os Mesa Boogie funcionam com temperaturas elevadas (principalmente nas juntas próximas às válvulas) por longos períodos, fator que também vai retirando o poder de junção da cola.

É, portanto, conveniente falarmos da etapa mais importante na construção de um gabinete robusto: a colagem das peças de madeira. Essa, que pode aparentar ser uma atividade simples, exige conhecimento e prática para ser bem realizada.

A questão mais importante a saber é que madeiras exigem pressão na colagem e não podem apenas ser juntadas por uma camada endurecida de cola PVA.

Quando a colagem ocorre sem pressão, a cola em si torna-se o elemento de fixação entre as duas peças, e não acontece ligação estrutural entre as superfícies de madeira.

Colas baseadas em ligas orgânicas tiveram seu valor na época dos violinos de Stradivari, porém nos dias atuais a cola a ser utilizada é aquela sintética, já bastante citada, com base em PVA (poli-vinil acetato).

As modernas colas de madeira iniciam o secamento minutos após serem aplicadas. A madeira inicia a absorção da água ou solvente contido na cola, e assim que a pressão é aplicada as peças começam a formar vínculo molecular entre si, até finalizar-se a cura final da cola (processo que pode levar alguns dias). Caso não haja pressão, apenas a cola se solidifica e as peças não soldam, cria-se literalmente um filete de cola rigida que apenas nos dá a impressão de haver fixação adequada entre as peças.

A secagem inicial relativamente rápida (24 horas) das colas de PVA exige que as peças sejam totalmente trabalhadas antes de aplicar a cola. Mover as peças após o início da colagem também reduzirá a qualidade das juntas e, portanto, devemos nos organizar para completar rapidamente o trabalho de montagem mecânica das peças antes de aplicar a primeira camada de cola.

Ao aplicar cola pela primeira vez sobre a superfície da madeira, a madeira começa a ser “selada” – a cola penetra e fecha os poros antes expostos. O selamento impede que, uma vez iniciado o secamento, mais cola penetre na madeira. Então é preciso acertar na primeira tentativa para dar origem a uma boa junção. Caso haja algum erro, a segunda tentativa não será mais tão robusta.

A cola PVA também impede o bom acabamento com verniz ou tingidores, portanto caso a área visível do gabinete seja manchada por cola, é preciso investir um certo tempo fazendo a total limpeza do local.

A limpeza das peças a serem coladas também é primordial. Gordura, óleos, resquícios de colagens anteriores, resinas de madeira, vernizes e outros seladores impedem a boa colagem, por vários dos motivos já discutidos. É preciso efetuar um trabalho de limpeza superficial da madeira antes de iniciar a colagem. Podem-se empregar alguns produtos para a remoção de gorduras na região de colagem: acetona, thinner 2700 e alcool isopropílico podem ser usados.

Devemos ter cuidado no emprego de qualquer um desses produtos – seu uso deve ser muito cuidadoso. Não só em função de sua toxicidade, mas porque até mesmo uma gota de acetona é capaz de marcar permanentemente a madeira por onde escorrer (no caso de gabinetes com madeira exposta). Pode-se trabalhar com a madeira de cabeça para baixo, de modo que caso ocorra escorrimento esse não atinja a parte que ficará exposta.

Utilizo um pano limpo, efetuando leve umedecimento do mesmo de modo que tenha o mínimo de sobra de solvente, limpando cuidadosamente a superfície que será colada.

O trabalho de colagem das peças exige, portanto, paciência e atenção a certos detalhes. Espero que as dicas aqui discutidas lhe auxiliem a realizar um bom trabalho de colagem.

Alças, pés e apoios para o gabinete

Pessoas irão interagir fisicamente com o gabinete do amplificador, carregando-o, efetuando sua instalação no palco, e assim por diante. Para tornar essa função mais fácil utilizamos alças, pés e outros apoios mecânicos.

As alças superiores, no estilo “malas de viagem” devem possuir reforço metálico interno em aço. Alças feitas apenas de couro ou plástico costumam romper-se com o tempo, problema que atingiu muitos amplificadores vintage, incluindo aqueles da Fender que, a partir de 1963, passaram a vir com alças reforçadas internamente por chapa de aço (TEAGLE, John. 1995. p. 32).

Os pés do amplificador devem, ao mesmo tempo, proteger a sua superfície inferior e propiciar a fácil movimentação do amplificador em superfícies lisas. Alguns, como aqueles utilizados em certos modelos de amplificadores Marshall, possuem duas peças separadas por uma camada de borracha. A borracha oferece um certo nível de amortecimento nas vibrações, especialmente quando o amplificador é posicionado sobre caixas acústicas, situação comum para cabeçotes.

Diversos modelos de amplificadores possuem apoios mecânicos externos. A Fender utilizou tal sistema para permitir que seus amplificadores fossem colocados em posição inclinada. A posição angulada também diminui a superfície de contato com o solo, especialmente em pisos com carpete, o que altera a resposta da caixa acústica. Outra inovação da Fender foi o sistema “piggyback”, no qual o cabeçote do amplificador é mecanicamente acoplado à parte superior da caixa acústica através de travas especiais. Assim, caixa e cabeçote podiam ser angulados juntos, sem risco de queda desse último, mesmo sob intensa vibração. O sistema da Fender era composto por duas barras metálicas cromadas, localizadas na lateral do amplificador. À distância aparentam ser apenas um detalhe de acabamento. Estas barras giram em torno de um pivô até que a alavanca superior se apóia em um batente. Forma-se, assim, um braço de de apoio em cada lado do amplificador.

Caixas acústicas podem ser mais facilmente transportadas utilizando alças laterais retráteis. Quando não estão sendo utilizadas, encaixam-se dentro de um receptáculo. Para carregar a caixa, basta puxar a alça.

A ausência de alças adequadas leva ao manuseio incorreto do equipamento. Estas servem, portanto, não só como auxilio mecânico mas também como um guia informal de como o construtor deseja que outros manuseiem o amplificador: técnicos e operadores de palco miram automaticamente nas alças. Quando não existem, “roadies” manipulam o equipamento à sua maneira.

Exemplo de efeito indesejável pode ser encontrado nos amplificadores com acabamento em verniz, o qual perde o brilho e deteriora-se rapidamente quando frequentemente manuseado. Para não alterar o visual em madeira exposta de um amplificador construido há alguns anos, preferí não incluir alças e apoios. O resultado foi um amplificador que se tornou difícil de transportar, especialmente devido ao cuidado requerido com o acabamento.

Portanto, equipamentos construídos para serem frequentemente movimentados devem possuir alças, apoios e reforços adequados.