Componentes “Vintage”

Em qualquer discussão relacionada aos amplificadores valvulados surge, necessariamente, o assunto dos componentes clássicos, os quais denominamos “vintage”.

Entende-se por “vintage” algo que tenha sido parte da moda em determinado período e que, após um certo período de relativo esquecimento, retornou à preferência de certos grupos, voltando a ser cultuado.

No contexto de amplificadores valvulados, especificamente para guitarra, a própria tecnologia a válvulas poderia ser considerada vintage mas, para evitar duplas interpretações, iremos chamar de vintage apenas equipamentos construídos antes da década de 1970. Os amplificadores Fender Tweed e Woodies, amplificadores Valco, Gibson pré 1965, Rickenbacker (por vezes grafados com h: Rickenbacher) são os maiores expoentes dessa época. Amplificadores Fender de placa frontal negra, os chamados “black faces” (1960’s) podem ser considerados itens de coleção, cuja caracterização como “vintage” cabe à preferência de cada um. São, obviamente, equipamentos com longa história e enorme tradição.

Falando de guitarra elétrica: certamente são “vintage” aqueles amplificadores construídos após a grande depressão de 1929, durante o New Deal (-1936), no início da II Guerra (-1945) e no surgimento da Fender (1946 em diante).

A Europa seguiria os Estados Unidos na fabricação de amplificadores valvulados para guitarra a partir do fim dos anos 1950. Aqueles que podem ser considerados os “vintage” europeus seriam os contemporâneos dos Vox AC15 surgidos em 1958, AC30 de 1959, e os primeiros Marshall surgidos a partir de 1962 – para citar apenas alguns exemplos.

Tendo definido o que, aproximadamente, consideraremos um equipamento vintage, podemos proceder ao estudo dos componentes vintage. Chamamos assim os componentes típicos daquela época. Seriam capacitores com dielétrico de papel ou óleo mineral, alto-falantes com bobina de campo, acabamento em tweed ou imitações de couro em cores estilizadas como a cor vinho, tecido ortofônico com padrões em losangos em fundo vinho ou marrom, plásticos a base de baquelite, montagens em pontes de terminais montados sobre tiras de fenolite ou baquelite, antecedendo inclusive às placas de ilhós e turrets, fios cobertos com pano, resistores com terminais nas laterais, capacitores com valores codificados a cores, potenciômetros com hastes longas, feitas para serem colocadas no interior de rádios e para puxar cordas de sintonização do receptor, tomadas de baquelite, fios de capeamento marrom, e incontáveis outras características marcam os componentes vintage.

Com o passar do tempo, o conceito subjetivo do que é ou não “vintage” vai se modificando, mas na discussão acima buscamos nos manter firmemente no território que, indiscutivelmente, remete ao conceito popular do que é um amplificador vintage / colecionável.

No entanto, há componentes de produção atual que procuram manter o visual daquela época, agregando vantagens trazidas pela modernidade. Capacitores Sprague, atualmente produzidos pela Vishay, trazem envólucros protegidos por isolante termo-retrátil, porém, ao abrir um capacitor Sprague Atom o leitor notará que internamente há uma pequena cápsula espiral comprimida entre condutor e dielétrico. O enorme envólucro serve apenas para manter o visual vintage dos tradicionais capacitores Sprague.

Os fios com capa de pano de produção atual possuem proteção anti-chamas e são produzidos tanto no formato fio sólido quanto cabos flexíveis. Normalmente têm o pano banhado em parafina, processo que os torna extremamente fáceis de desencapar e trabalhar, pois a cobertura não se desfia facilmente ao ser cortada. Uma enorme diferença de tempos passados.

Assim, o amplificador valvulado construído na atualidade, e que busca manter o aspecto vintage, irá, necessariamente, empregar alguns componentes considerados “modernos”. O uso de componentes autenticamente vintage é, inclusive, uma atividade que implica em certo risco para a qualidade final do equipamento.

Ocorrem leilões onde válvulas GE ou RCA de 1960 são vendidas com enorme ágio devido à enorme demanda que existe por tais componentes. No entanto, deve-se lembrar que estas válvulas sobreviveram a, pelo menos, 50 anos de manuseio, movimentações, eventuais quedas, armazenamento em condições precárias e, assim, por diante. Componentes vintage possuem, é claro, enorme apelo subjetivo, no entanto, é possível manter o aspecto “vintage” utilizando componentes mais confiáveis, produzidos na atualidade. Os capacitores eletrolíticos, por exemplo, possuem vida útil finita, e grande parte dos lotes de capacitores com mais de 20 anos de fabricação já não podem ser usados caso tenham permanecido descarregados por todo esse tempo. O eletrólito contido nestes capacitores requer carga elétrica periódica para manter-se funcional. Ao conectar pela primeira vez capacitores eletrolíticos que permaneceram em armazenamento por longo período, devemos utilizar um limitador de corrente, pois há a possibilidade da ruptura súbita do dielétrico e eventual curto-circuito.