O Big Bang do Rock e do Blues

“Viva como se fosse morrer amanhã. Aprenda como se fosse viver para sempre.“
– Gandhi

O primeiro amplificador de áudio surge no mesmo contexto histórico em que nasce a própria eletrônica. De fato, o primeiro circuito eletrônico da história foi aquele de um amplificador (DE FOREST. 1908).

A válvula termiônica, à qual no decorrer deste texto iremos muitas vezes nos referir apenas como “válvula”, nos deu completo e total controle sobre o fluxo de elétrons em um circuito.

Antes limitados a abrir e fechar contatos usando chaves comutadoras simples, limitar a corrente com de resistores e outros componentes elétricos precários, engenheiros podiam agora direcionar, amplificar ou reduzir a intensidade da corrente elétrica por meio de um componente rápido e preciso. Tornou-se possível enviar sinais de telégrafo a longas distâncias, amplificar os minúsculos sinais de rádio, falar por telefone com interlocutores em outras cidades, falar para grandes públicos em discursos e pronunciamentos políticos, entre outras incontáveis aplicações.

O ser humano encontrava-se livre para manipular a eletricidade como bem desejasse: a descoberta da válvula termiônica está para a eletrônica como o domínio das forjas esteve para as ferramentas de metal.

A partir do início do século XX, o mundo estava prestes a viver uma revolução. Ninguém imaginou, porém, que seria a fase de maior e mais rápido desenvolvimento tecnológico da história: vivíamos o nascimento da Era da Informação.

Em menos de 40 anos, a descoberta das válvulas levaria a humanidade à construção dos primeiros computadores digitais, idealizados antes da II Guerra e construídos antes do fim da década de 1940 (COPELAND. 2005). Com a descoberta dos transistores, o trabalho que as válvulas vinham desempenhando nos primeiros computadores foi multiplicado milhares de vezes. Hoje, qualquer modelo de telefone celular possui incontáveis mais “válvulas” eletrônicas que o ENIAC, um dos primeiros computadores da história.

A cronologia que levou à invenção da primeira válvula, e que interessa para nosso estudo, pode ser resumida nos seguintes momentos-chave:

1. 1874 – O canadense Henry Woodward obtém a patente da lâmpada incandescente. (Canada, Patente nr. 3738, Estados Unidos Patente nr. 181613 de 1875)

2. 1880 – Thomas Edison registra a primeira patente de uma “lâmpada melhorada” (US Pat. nr. 223898)

3. 1905 – John Ambrose Fleming patenteia a primeira válvula termiônica (Grã Bretanha, patente nr. GB190424850, Estados Unidos – Patente nr. 803684 de 1905)

4. 1908 – Lee De Forest obtém patente do primeiro triodo (DE FOREST, 1908)

Dos grandes nomes acima citados destacamos Lee De Forest, pai do amplificador valvulado.

Lee De Forest, PhD, físico e inventor norte-americano, ingressou com pedido de patente de um sistema de “Telegrafia Espacial” em 29 de Janeiro de 1907. Em sua patente, publicada em 18 de Fevereiro do ano seguinte, vê-se, pela primeira vez na história, um componente eletrônico ativo composto de três eletrodos: um catodo, a grade de controle e o anodo. Trata-se do primeiro “triodo” da história, apesar de, naquele momento, ainda não ser chamado dessa forma: seu invento foi inicialmente batizado de “audion”.

Posteriormente, ao falarmos dos componentes da válvula, entraremos em detalhes a respeito do funcionamento de cada estrutura interna do triodo.

Por hora, nos limitaremos a ressaltar a importância histórica dessa descoberta no surgimento dos primeiros amplificadores valvulados para guitarra.

Na figura acima, parte da patente do audion obtida por De Forest, podemos identificar um circuito ressonante formado por I2 e C’, o qual, acoplado usando um segundo capacitor C’’, injeta o sinal na grade de controle (a) do triodo através do ponto 1. Tratava-se, de acordo com o autor da patente, de um “detector de sinais para telégrafos”.

Para o leitor que já possui alguma familiaridade com circuitos de amplificadores valvulados, o desenho acima lhe parecerá estranhamente familiar. Não é mera coincidência! O dispositivo descrito na patente de 1908 é o primeiro receptor de rádio amplificado da história. A novidade não era a recepção de sinais de rádio, pois o funcionamento dos circuitos ressonantes já era conhecido pelos cientistas no século XIX (LOOMIS. 1872). A grande inovação da patente de Lee de Forest encontrava-se na amplificação dos pulsos telegráficos recebidos pelo circuito ressonante. O mesmo princípio ali descrito seria utilizado, e é utilizado até os dias atuais com pequenas alterações, para a amplificação de áudio.

A evolução dos amplificadores de áudio ocorreu principalmente devido ao desenvolvimento do rádio e do telefone. Esse último poderia agora ser utilizado em transmissões em longas distâncias, usando estações repetidoras, ou amplificadoras (HUURDEMAN. 2003. p. 322). Uma discussão aprofundada da história desses dois inventos foge ao propósito deste texto: o telefone e o rádio são duas das maiores invenções do século XX, cujas histórias encontram-se fartamente documentadas em registros históricos específicos.

Entre os mais importantes capítulos da história da eletrônica que não estudaremos aqui, encontram-se também o surgimento da empresa AT&T, fato que está diretamente ligado à explosão da telefonia mundial. Deve-se destacar o surgimento do centro de pesquisas Bell Labs na AT&T, onde, no futuro (1947), seria inventado o transistor. Ao longo da história, a Bell Labs acumularia nada menos que 7 prêmios Nobel (GODFREY. 1998. p. 38).

Com o nascimento da era eletrônica e a popularização dos rádios elétricos, acontecem também importantes capítulos na história dos gigantes dos negócios da música, como a RCA (“Recording Corporation of America”).

E não poderíamos deixar de mencionar o surgimento da General Electric Corporation (GEC) que, até os dias atuais, é uma das maiores empresas do mundo e que, naquilo que mais nos interessa, se tornará produtora de algumas das válvulas mais procuradas para amplificadores vintage.

Nossa história da amplificação dará agora um longo salto, desde a invenção das primeiras válvulas à amplificação de instrumentos musicais.

Do Theremin à Guitarra Havaiana

Ao fim da década de 1920, um instrumento musical eletricamente amplificado seria patenteado pelo inventor russo Léon Theremin.

Posteriormente batizado com o sobrenome de seu criador, o aparelho era construído no interior de um gabinete de mogno (GLINSKY. 2000. p. 51), com formato semelhante àquele de um antigo caixa registrador de supermercado. O gabinete contava com duas antenas laterais que eram manipuladas pelo músico sem haver qualquer contato físico: bastava movimentar as mãos nas proximidades das mesmas para causar perturbações na sintonia de um circuito ressonante; essas alterações eram então traduzidas em sinais de áudio. Um amplificador valvulado era responsável por aumentar a potência dos sinais, para depois reproduzi-los usando um transdutor acústico – precursor dos modernos alto-falantes, semelhante ao encontrado em gramofones.

Uma antena era utilizada para o controle do volume e outra permitia o controle da frequência, ou tom musical – eram usadas ambas as mãos, uma para cada antena.

Infelizmente, para Theremin, os timbres fantasmagóricos obtidos com seu invento nunca obtiveram grande sucesso na música popular. No entanto, o curioso instrumento continuou a ser empregado décadas após sua invenção. O músico francês Jean Michel Jarre, para citar um exemplo relevante, divulgou o Theremin em palcos de todo o mundo na turnê do álbum Oxygene, de 1976 (em especial na canção Oxygene 3).

Apesar de existirem registros de instrumentos musicais elétricos anteriores ao Theremin, a exemplo do Telarmónio, nenhum possuía fonte de áudio totalmente eletrônica – eram acústicos e, portanto, microfonados (BROSNAC. 1987. p. 4). O Theremin trazia um amplificador valvulado embarcado no gabinete e seus timbres eram produzidos por um circuito eletrônico – fazendo dele o primeiro instrumento musical inteiramente eletrônico e amplificado a válvulas.

Rumo à Guitarra Elétrica

Ao final dos anos 1920, e início da década de 1930, a guitarra havaiana ganhava espaço na música popular norte-americana.

As primeiras guitarras havaianas têm origem na mera adaptação do violão para ser tocado na posição horizontal, deitado no colo do músico, com a cavidade acústica voltada para cima (RUYMAR. 1996. p. 16).

O guitarrista aplicava à guitarra uma afinação especial de modo que acordes fossem facilmente formados ao pressionar todas as cordas juntas na mesma pestana (determinada “casa” ou traste do violão). Utilizava-se então uma barra metálica sólida (“slide”), no lugar do método tradicional usando o dedo indicador, para formar a pestana. Ao deslizar a barra de metal sobre as cordas, os acordes e notas individuais podiam ser movidas umas às outras sem alterações bruscas. O resultado é uma bela sonoridade obtida a partir de uma técnica trivial e de fácil aprendizado, usando instrumentos relativamente comuns. Durante os primeiros anos da década de 1930, a guitarra havaiana foi levada para o continente americano. Lá foi empregada principalmente nos estilos Country e Bluegrass, modalidades folclóricas dos Estados Unidos, principalmente na região sul do país (MCCALL. 2012. p. 908).

Porém, não são comuns as gravações do gênero Blues utilizando a guitarra havaiana. Os trabalhos mais conhecidos de Robert Johnson (1911-1938) foram todos gravados exclusivamente em violões tradicionais (tocados na posição do violão espanhol), Blind Blake (1896-1934), pioneiro do gênero “Ragtime Blues” (adaptações do piano para a guitarra), também gravou exclusivamente em instrumentos tradicionais. Outros nomes reconhecidos como Lightnin’ Hopkins, Blind Boy Fuller e Big Bill Broonzy tampouco utilizaram a guitarra havaiana.

Há, porém, uma exceção. O guitarrista Casey Bill Weldon, “mago da guitarra havaiana”, foi um expoente do Blues utilizando tal instrumento (HERZHAFT. 1997. p. 217). Porém, como podemos notar, Weldon representa um caso singular – a guitarra havaiana simplesmente não era o instrumento do Blues.

Seja por motivos culturais, sociais, ou apenas por questão de gosto, a guitarra havaiana continua sendo estranha ao gênero do Blues na atualidade. Ao ouvir uma canção tradicional do Blues sendo executada na guitarra havaiana, o ouvinte certamente a identificará como sendo “um estilo de música Country”.

Devido ao crescimento das bandas de Country e Bluegrass, as adaptações feitas à guitarra havaiana foram diversas. A necessidade de se obter maior volume sonoro por parte destes instrumentos foi o grande catalisador do desenvolvimento dos primeiros captadores magnéticos para instrumentos acústicos de cordas metálicas (RUYMAR. 1996. p. 127).

O sinal proveniente destes poderia ser amplificado, fato que atraía a ambição de inventores para solucionar o principal dilema do músico profissional durante aquele período: como tornar o instrumento de cordas tão audível quanto a seção de percussão, os violinos tradicionais (fiddles) e os instrumentos de sopro?

A resposta a essa questão foi a guitarra elétrica, instrumento que mudaria por completo a história da música contemporânea.

A Primeira Guitarra Elétrica

O registro de patente número 2089171 (USPTO) de autoria de Paul Barth, George Beauchamp e Adolph Rickenbacker, emitida em Agosto de 1937, é a “certidão de nascimento” da guitarra elétrica.

Apelidada de “frigideira de Beauchamp” (SMITH, Richard. 1987. p. 28) devido a seu formato, a invenção trouxe fama a um nome que posteriormente ajudaria a escrever parte da história da música contemporânea: Rickenbacker. Como pode ser verificado na ilustração acima, proveniente da primeira página da famosa patente da guitarra elétrica, está ali claramente descrito (Fig. 2) o componente que hoje conhecemos por “captador”.

Pode-se dizer que a guitarra ilustrada na patente de Rickenbacker está para a guitarra moderna como o avião 14 Bis, de Alberto Santos Dumont, está para os aviões em que voamos hoje. Apesar da semelhança a outros aparelhos voadores da época, o 14-Bis possuía rodas, decolava sem a necessidade de trilhos ou dispositivos auxiliares, e permitia ao piloto movimentar-se livremente em sua “cabine”. Da mesma forma, a “frigideira” possui formato de banjo, tendo o captador eletromagnético sobre as cordas e as hastes metálicas inseridas dentro do núcleo do indutor, alinhadas com as respectivas cordas. Fazendo o corpo em madeira, alterando ligeiramente a escala e o posicionamento dos captadores, teríamos a guitarra elétrica moderna.

Um detalhe que deve ser ressaltado é a presença do controle de volume no instrumento de Rickenbacker. Ao examinarmos alguns dos primeiros amplificadores para guitarra havaiana, notaremos que alguns destes não possuíam controle de volume. Nesses casos, o controle de ganho e volume era realizado pelo músico, utilizando o potenciômetro de volume do próprio instrumento. Ao observarmos alguns dos grandes guitarristas contemporâneos, notaremos que utilizam exaustivamente o controle de volume da guitarra, técnica que têm origem nas primeiras guitarras elétricas da história.

O sucesso da guitarra “frigideira” de Rickenbacker o estabeleceu não só como o pai da guitarra elétrica, mas também como excelente empreendedor. A partir de seu sucesso comercial, Gibson, Fender e incontáveis outros passaram a competir neste recém nascido mercado.